{"id":26499,"date":"2025-12-21T13:55:17","date_gmt":"2025-12-21T16:55:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldaconstrucaocivil.com.br\/?p=26499"},"modified":"2025-12-21T13:55:17","modified_gmt":"2025-12-21T16:55:17","slug":"artigo-os-herois-negros-esquecidos-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldaconstrucaocivil.com.br\/?p=26499","title":{"rendered":"ARTIGO: Os her\u00f3is negros esquecidos do Brasil"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<p>Por <i>Edison Em\u00eddio dos Reis<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dezembro, 2025 &#8211; Nos filmes e s\u00e9ries norte-americanos, veteranos de guerra s\u00e3o frequentemente cumprimentados com a frase \u201cObrigado pelos seus servi\u00e7os\u201d. Esse gesto simples simboliza reconhecimento coletivo e legitima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. No Brasil, por\u00e9m, soldados negros, ind\u00edgenas e descendentes de africanos que lutaram na Guerra do Paraguai permanecem invis\u00edveis. Apesar de representarem parte significativa das tropas brasileiras como mostrou Francisco Doratioto em \u201cMaldita Guerra\u201d, eles foram sistematicamente omitidos da narrativa oficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa exclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acidental. A identidade nacional foi constru\u00edda com base em refer\u00eancias europeias, de acordo com Lilia Mortiz Schwarcz e Heloiza Murgel Starlingem \u201cBrasil: uma Biografia\u201d,\u00a0ignorando contribui\u00e7\u00f5es afro-ind\u00edgenas e refor\u00e7ando uma ideia de hero\u00edsmo associada \u00e0s elites brancas. A escravid\u00e3o, sustentada por uma legisla\u00e7\u00e3o que transformava pessoas em propriedade, dificultou qualquer reconhecimento posterior, mesmo quando esses indiv\u00edduos foram enviados ao\u00a0<em>front<\/em>, como explicitado por Abdias Nascimento em \u201cO genoc\u00eddio do negro brasileiro&#8221;. A aboli\u00e7\u00e3o, tardia e sem medidas reparat\u00f3rias, consolidou esse desligamento entre sacrif\u00edcio e reconhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somado a isso, o influxo de imigrantes europeus no fim do s\u00e9culo XIX contribuiu para a fragmenta\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. Conforme apontado por Darcy Ribeiro no cl\u00e1ssico \u201cO povo brasileiro\u201d, muitos desses imigrantes chegaram sem rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria militar brasileira e passaram a reproduzir suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es culturais, refor\u00e7ando modelos identit\u00e1rios distantes da realidade nacional anterior \u00e0 sua chegada. Resultado: os verdadeiros protagonistas de batalhas fundamentais foram substitu\u00eddos por personagens simb\u00f3licos mais palat\u00e1veis ao imagin\u00e1rio dominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A persist\u00eancia do apagamento afeta diretamente a no\u00e7\u00e3o de pertencimento. Quando a hist\u00f3ria \u00e9 contada como se apenas alguns tivessem constru\u00eddo o pa\u00eds, os demais permanecem como figurantes. O impacto \u00e9 profundo: quem n\u00e3o se v\u00ea na hist\u00f3ria, n\u00e3o se reconhece no presente. Incorporar ancestralidade, espiritualidade e a cosmologia dos orix\u00e1s nessa revis\u00e3o historiogr\u00e1fica \u00e9 uma forma de repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica indispens\u00e1vel. A espiritualidade de matriz africana serviu como fonte de resist\u00eancia emocional para muitos combatentes, sustentando-os diante da viol\u00eancia e do abandono, conforme Reginaldo Prandi analisou em \u201cAs religi\u00f5es afro-brasileiras e a resist\u00eancia cultural&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recontar essa hist\u00f3ria exige coragem e honestidade. O sil\u00eancio que recai sobre esses her\u00f3is parece ser parte ativa da manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades. Romper com essa l\u00f3gica significa devolver voz e dignidade aos que lutaram sem serem lembrados. Reconhec\u00ea-los n\u00e3o corrige apenas registros: reconfigura os fundamentos da identidade nacional e redefine quem tem o direito de dizer com legitimidade: \u201cEste pa\u00eds tamb\u00e9m foi constru\u00eddo por mim.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como homenagem a um her\u00f3i esquecido, cita-se o capit\u00e3o Marcolino Jos\u00e9 Dias, dos Zuavos da Bahia, que no cerco ao Forte de Curuz\u00fa escalou a muralha inimiga, arrancou a bandeira paraguaia e hasteou o pavilh\u00e3o brasileiro ao grito de \u201cEst\u00e1 aqui o negro zuavo baiano!\u201d. Que sua coragem simbolize o resgate da mem\u00f3ria e a repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de todos que lutaram pelo pa\u00eds, mas jamais receberam o devido reconhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Edison Reis \u00e9 autor do livro \u201cFern\u00e3o e a Epopeia da Coluna dos Pretos\u201d, que marca sua estreia na literatura e apresenta o protagonisto das pessoas negras na Guerra do Paraguai<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Edison Em\u00eddio dos Reis Dezembro, 2025 &#8211; Nos filmes e s\u00e9ries norte-americanos, veteranos de guerra s\u00e3o frequentemente cumprimentados com a frase \u201cObrigado pelos seus servi\u00e7os\u201d. Esse gesto simples simboliza reconhecimento coletivo e legitima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. No Brasil, por\u00e9m, soldados negros, ind\u00edgenas e descendentes de africanos que lutaram na Guerra do Paraguai permanecem invis\u00edveis. 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