Urbanização de favelas precisa incorporar crise climática, aponta nova pesquisa do Ibase

Estudo com 10 mil moradores identifica baixa presença de arborização e problemas de drenagem, contenção de encostas e manutenção em territórios vulneráveis a eventos extremos

A emergência climática impõe um novo desafio às políticas de urbanização de favelas do Rio de Janeiro. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), realizada com 10.001 moradores de 18 favelas cariocas, aponta baixa capacidade instalada nos territórios para enfrentar eventos climáticos extremos e identifica problemas relacionados à drenagem, contenção de encostas, arborização e manutenção das intervenções. Para o Ibase, uma nova política de urbanização precisa incorporar a adaptação climática como elemento central da garantia do direito à cidade.

Os resultados fazem parte da pesquisa Novos Olhares sobre as Transformações Urbanas nas Favelas, que avaliou, a partir da percepção dos moradores, os impactos e legados de programas como Favela-Bairro/Bairrinho e Morar Carioca. O levantamento ouviu moradores entre 2022 e 2023 e entre 2025 e 2026 e foi complementado por rodas de conversa nos territórios.

A pesquisa mostra que as intervenções realizadas ao longo das últimas décadas trouxeram melhorias importantes, mas a falta de continuidade e manutenção compromete parte desses avanços. O problema ganha uma nova dimensão diante da emergência climática, especialmente em favelas localizadas em encostas, próximas a rios e em áreas sujeitas a alagamentos e outros riscos.

Arborização também é infraestrutura urbana

A arborização aparece como uma das maiores lacunas identificadas pela pesquisa. Oito em cada dez entrevistados, 80,9%, não perceberam melhorias ou ações de arborização associadas às intervenções de urbanização.

Para o Ibase, ampliar a presença de árvores nas favelas não deve ser tratado apenas como uma questão paisagística. A arborização integra as estratégias de adaptação às mudanças climáticas, especialmente diante do aumento das temperaturas e da exposição de áreas densamente ocupadas a eventos extremos.

“A crise climática exige uma nova concepção de urbanização. Arborização, drenagem, contenção de encostas e proteção diante dos riscos não podem ser elementos acessórios. São dimensões do direito à cidade e precisam fazer parte do planejamento e dos investimentos destinados às favelas”, afirma Rita Corrêa Brandão, diretora executiva do Ibase e coordenadora geral da pesquisa.

Os relatos dos moradores também mostram como a falta de manutenção pode comprometer intervenções que, inicialmente, reduziram riscos. Redes de drenagem deterioradas, assoreamento de rios, acúmulo de resíduos e degradação das vias aparecem entre os problemas identificados.

Em Fernão Cardim, por exemplo, um participante de uma das rodas de conversa reconheceu que as intervenções reduziram os transbordamentos, mas relata que a falta de manutenção voltou a representar um problema para a comunidade. Em Parque Unidos, moradores apontam a necessidade de limpeza e dragagem periódica do Rio Acari.

A percepção dos moradores reforça a necessidade de compreender a manutenção como parte permanente da política de urbanização, e não como uma ação eventual após a conclusão das obras.

“Uma obra de urbanização não termina quando é entregue. Sem manutenção permanente, estruturas que representaram avanços para os territórios se deterioram e podem voltar a expor os moradores a situações de risco. Com eventos climáticos cada vez mais extremos, essa continuidade se torna ainda mais necessária”, afirma Joice Lima, coordenadora técnica da pesquisa.

Saneamento e clima estão diretamente relacionados

A pesquisa também chama atenção para a relação entre a garantia do direito ao saneamento e a capacidade dos territórios de enfrentar eventos extremos.

Entre os moradores entrevistados, 26,6% apontam sucateamento das redes de esgoto e drenagem, enquanto 24,3% identificam problemas de manutenção na rede de abastecimento de água e 22,4% nas ruas, escadarias e rampas.

Os problemas se somam a déficits que ainda persistem. Embora 79,6% reconheçam que os antigos programas ampliaram o acesso à água, 49,1% identificam atualmente moradores sem esse direito garantido. Além disso, 36,9% afirmam que a água não chega diariamente às residências e 34,2% indicam que parte da população ainda não possui acesso à rede regular de abastecimento.

O estudo reforça que saneamento, drenagem e manejo das águas precisam ser planejados de forma integrada. A insuficiência dessas estruturas afeta a vida cotidiana e aumenta a vulnerabilidade diante de chuvas intensas, enchentes e alagamentos.

O desafio se torna maior diante das transformações ocorridas nos próprios territórios. A pesquisa mostra que 89,9% dos entrevistados percebem aumento da população das favelas pesquisadas e 81,6% identificam expansão das áreas ocupadas.

Esse crescimento exige que futuros programas sejam dimensionados a partir da realidade atual de cada favela. O estudo conclui que intervenções parciais e fragmentadas não respondem à complexidade dos territórios e recomenda atenção especial às áreas e grupos mais vulnerabilizados.

O diagnóstico ganha relevância diante da ausência de uma política robusta e contínua de urbanização de favelas no Rio na última década. Segundo dados do SABREN/IPP de 2022 apresentados pelo estudo, a cidade possui 1.072 favelas cadastradas. Apenas 159 são consideradas urbanizadas e 114 parcialmente urbanizadas. Cerca de 68% permanecem sem urbanização estruturada.

Adaptação climática deve orientar novos programas

Entre as recomendações, o Ibase defende ações estruturais e contínuas, com ampliação e qualificação das obras de contenção de encostas, drenagem de rios e sistemas de manejo de águas pluviais.

O estudo também aponta a necessidade de manutenção permanente, monitoramento de riscos, sistemas de alerta, planos de contingência e participação comunitária. A arborização deve integrar as estratégias de adaptação climática e as áreas mais vulneráveis devem ter prioridade nos investimentos.

“Não podemos pensar uma nova política de urbanização olhando apenas para os problemas do passado. As favelas cresceram e a emergência climática colocou novos desafios. Garantir o direito à moradia adequada, ao saneamento e a um território seguro exige planejamento permanente, participação dos moradores e investimentos capazes de preparar esses territórios para uma realidade climática que já está presente”, afirma Rita Brandão.

Sobre a pesquisa

A pesquisa Novos Olhares sobre as Transformações Urbanas nas Favelas ouviu 10.001 pessoas em 18 favelas do Rio de Janeiro. A coleta foi realizada em duas etapas, entre 2022 e 2023 e entre 2025 e 2026. O estudo avaliou os impactos e legados dos programas de urbanização a partir da percepção dos moradores e complementou o levantamento quantitativo com rodas de conversa nos territórios.

O lançamento será realizado nesta terça-feira (18), às 17h, no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, na Avenida Rio Branco, 124, 22º andar, Centro.

Alguns números

• 80,9% não perceberam melhorias ou ações de arborização

• 89,9% percebem aumento da população nas favelas pesquisadas

• 81,6% identificam expansão das áreas ocupadas

• 26,6% apontam sucateamento das redes de esgoto e drenagem

• 24,3% identificam sucateamento da rede de abastecimento de água

• 49,1% identificam moradores sem o direito à água garantido

• 36,9% afirmam que a água não chega diariamente às residências

• 68% das favelas cadastradas no Rio permanecem sem urbanização estruturada

Confira a íntegra do Sumário Executivo aqui.

Confira também a programação de lançamento aqui.

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