Seis meses de guerra no Irã pressionam custos e redesenham estratégias na cadeia de embalagens e tintas no Brasil

Volatilidade do petróleo, alta das resinas e pressão logística atravessam o segmento, enquanto mercado projeta crescimento limitado em 2026.

Setembro, 2026 – Seis meses depois do início da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, os efeitos do conflito seguem atravessando cadeias industriais distantes do Oriente Médio. No Brasil, um dos reflexos aparece no mercado de tintas para impressão flexográfica e rotogravura, segmento diretamente ligado à produção de embalagens plásticas flexíveis e dependente de matérias-primas da indústria petroquímica e do comércio internacional.

O cenário encontra um mercado que já tem pouco espaço para avançar em volume. O estudo mais recente da Associação Brasileira de Embalagem (ABRE), elaborado com a FGV IBRE e divulgado no fim de agosto, projeta crescimento de apenas 0,2% na produção de embalagens em 2026. Embora tenha havido uma reação da produção no segundo trimestre, a própria análise classifica a perspectiva para o ano como de crescimento limitado, diante da desaceleração da economia e da pressão sobre os custos.

Neste cenário, para os fabricantes de tintas de impressão, o movimento importa, porque a demanda acompanha diretamente o ritmo dos convertedores e das indústrias que utilizam embalagens flexíveis. Na avaliação do diretor executivo da Cyan Tintas e Vernizes, Maurício Silvério, essa combinação tornou o primeiro semestre especialmente instável e desafiador para o segmento.

“Já existiam alguns eventos previsíveis e indicadores econômicos que estavam sendo medidos, como inflação e a taxa Selic. O que não se previa era uma guerra entre Estados Unidos e Irã que tivesse reflexos tão impactantes na cadeia em que estamos inseridos. Nós somos fabricantes de tintas para impressão de embalagens flexíveis e nossos clientes estão diretamente ligados ao consumo de polietileno e polipropileno, que são derivados da cadeia petroquímica”, afirma Silvério.

Pressão nos insumos

A ligação entre o conflito e essa cadeia começa no petróleo. O Estreito de Hormuz, passagem marítima estratégica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, teve seu fluxo de petróleo e derivados fortemente reduzido durante a guerra. Segundo estimativa atualizada em agosto pela Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), o volume transportado pela rota caiu de uma média de 21,6 milhões de barris por dia no último trimestre de 2025, antes do conflito, para 4,9 milhões no segundo trimestre deste ano.

A restrição mexeu também com a cotação internacional do petróleo. O Brent — principal referência mundial para a formação do preço do petróleo — chegou a superar US$ 118 por barril em abril, recuou para a casa dos US$ 70 no fim de junho e voltou a ultrapassar US$ 90 no final de agosto, com a retomada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã. A oscilação ajuda a explicar por que, mesmo depois do alívio observado no meio do ano, a indústria ainda não considera encerrada a pressão provocada pelo conflito.

Esse movimento chegou às fabricantes de tintas por duas frentes: pela oscilação da demanda dos clientes e pelo encarecimento de insumos utilizados na própria produção. “Diretamente, nós também tivemos impacto nos insumos derivados da cadeia petroquímica, tal como os nossos clientes, e os solventes foram os principais impactados. Paralelo a isso, outro problema gravíssimo foi a interrupção marítima no estreito, o que aumentou o tempo de navegação e os desvios que antes não eram feitos passaram a ser necessários. Se você navega mais tempo, consome mais combustível. Se consome mais combustível, tem um frete mais caro”, explica Silvério.

Na prática, a sucessão de altas e recuos alterou o comportamento das compras ao longo do semestre. Segundo o executivo, diante da ameaça de falta de matéria-prima, convertedores anteciparam pedidos para garantir abastecimento. Mais adiante, já com estoques formados e alguma redução nos preços do petróleo e das resinas, passaram a consumir o material comprado antes de retornar ao mercado. O resultado para as tintas de impressão foi um semestre de picos e retrações de demanda, sem uma trajetória contínua de crescimento.

No caso da Cyan, a empresa também precisou administrar a chegada de insumos adquiridos a custos diferentes, trabalhando com custo médio e absorvendo parte das altas antes de realizar repasses.

Estoque e ampliação de mercado

A instabilidade de 2026 também reforçou a maneira da indústria de olhar para os estoques. Por ter antecipado riscos de abastecimento em uma cadeia fortemente internacionalizada, a Cyan confirmou a importância da existência da área de 4 mil metros quadrados que, atualmente, é destinada à armazenagem de matérias-primas na empresa. A estrutura proporcionou à fabricante maior capacidade para atravessar períodos de interrupção ou atraso no fornecimento sem comprometer a entrega de tintas aos convertedores.

“Se a gente fosse usar o diário de bordo acadêmico, manter um estoque seria custo. Mas nos momentos de crise, com uma cadeia de suprimentos que está sendo interrompida e majorada de forma exacerbada por questões geopolíticas, ele passa a ser estratégico. Obviamente que, para isso, precisa ter saúde financeira, porque é isso que permite ter um estoque de segurança e ser um porto seguro para os clientes em termos de abastecimento”, avalia Silvério.

A segunda resposta foi ampliar as possibilidades de abastecimento. A área de suprimentos passou a trabalhar em conjunto com o Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Novas Matérias-Primas da Cyan na busca de alternativas, inclusive fora da Ásia e em mercados que mantenham acordos comerciais com o Brasil.

Os próximos meses

De acordo com o diretor executivo da Cyan, a expectativa para os próximos meses combina uma melhora sazonal da demanda com a permanência da pressão sobre custos. Na avaliação de Silvério, o segundo semestre costuma ser mais aquecido para segmentos atendidos pelas embalagens flexíveis, especialmente com o aumento do consumo relacionado ao fim do ano. O movimento, no entanto, ocorre enquanto a guerra continua sem uma solução definitiva e o petróleo voltou a reagir às tensões no Oriente Médio.

“Alguns consumos são mais acentuados no fim do ano, por exemplo, no mercado de bebidas e de descartáveis. Sobre os impactos do custo, ainda acredito que vamos passar este próximo semestre com inflação no segmento, por consequência das questões geopolíticas mundiais”, projeta.

O horizonte de 2027 também mantém o setor em alerta. No estudo divulgado no fim de agosto, ABRE e FGV IBRE apontam risco de desaceleração mais forte da economia brasileira no início do próximo ano. Para uma cadeia diretamente associada ao consumo, uma economia mais fraca tende a chegar às embalagens e, na sequência, à demanda por tintas de impressão.

“Os impactos na economia, a taxa de juros alta e a inflação acabam deteriorando o poder de compra dos consumidores, que, por consequência, vão consumir menos embalagem e, consumindo menos embalagem, consomem menos tinta impressa nas embalagens. Ainda não consegui ter uma leitura final sobre o aspecto de crescimento que está sendo projetado, mas alguns indicadores econômicos tem mostrado que o segmento deve andar de lado, com crescimento quase zero, estagnado”, conclui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *