Por Rogério Moraes*, CEO da Kemp, empresa de projetos e gerenciamento de obras
Setembro, 2026 – Em um cenário de margens pressionadas e necessidade crescente de eficiência, reduzir custos se tornou uma prioridade para empresas de praticamente todos os setores. Na construção civil e em projetos de engenharia, essa realidade é ainda mais evidente. Mas existe um erro que continua comprometendo resultados: tratar preço e custo como se fossem a mesma coisa.
Na prática, eles representam conceitos muito diferentes. O preço corresponde ao valor pago pela contratação. Já o custo engloba tudo o que acontece depois da assinatura do contrato, como retrabalho, revisões, atrasos, paralisações, aditivos, desperdício de materiais, horas dedicadas pelas equipes para solucionar problemas e impactos na operação.
A preocupação não é apenas uma percepção do mercado, ela aparece em estudos sobre produtividade na construção. Uma publicação divulgada pela McKinsey alerta que o setor deverá crescer aproximadamente US$ 22 trilhões até 2040. Para acompanhar essa demanda, será indispensável aumentar a produtividade, justamente em um momento em que as margens permanecem pressionadas e há escassez de mão de obra qualificada.
Isso significa que decisões tomadas na fase de contratação terão um peso cada vez maior sobre a competitividade das empresas. Mesmo assim, ainda é comum ver processos de concorrência em que a comparação entre fornecedores se resume praticamente ao menor valor apresentado na proposta.
Ao longo da minha carreira, percebi que boa parte dos prejuízos não nasce de grandes imprevistos. Eles começam muito antes da obra, em decisões aparentemente simples tomadas durante a contratação. Quando a escolha considera apenas as cifras, riscos importantes acabam ficando em segundo plano.
Projetos incompatíveis com a realidade da obra, escopos mal definidos, maior necessidade de revisões, equipes internas mobilizadas para solucionar problemas que poderiam ter sido evitados, aditivos contratuais e, talvez o mais crítico, atrasos na entrada em operação de um empreendimento.
É justamente nesse momento que gosto de fazer uma pergunta aos clientes: Quanto custa um dia de atraso na abertura de uma loja, de uma unidade industrial ou de um centro de distribuição?
Dependendo da operação, esse prejuízo pode superar, em poucas horas, toda a economia obtida durante a contratação. Costumo resumir essa situação em uma frase bastante simples: “Economizou 20 no projeto e perdeu 500 na obra.”
Essa lógica também aparece em pesquisas internacionais. Um levantamento realizado pela FMI Corporation, consultoria especializada no setor da construção, mostra que entre US$ 30 bilhões e US$ 40 bilhões são perdidos anualmente devido à baixa produtividade. O estudo revela ainda que seis em cada dez empresas estimam desperdiçar mais de 11% dos custos de mão de obra e apontam falhas de planejamento, baixa qualidade dos projetos e problemas de coordenação entre as principais causas dessas perdas.
Perceba que nenhum desses fatores tem relação direta com o valor apresentado na proposta comercial. Eles estão ligados à qualidade do planejamento, da execução e da gestão do projeto.
Por isso, acredito que precisamos amadurecer a forma como avaliamos fornecedores. Essa mudança exige que Compras, Engenharia, Projetos, Obras e Financeiro participem da decisão de forma integrada.
À medida que a construção civil incorpora novas tecnologias, digitaliza processos e busca ganhos de produtividade, as empresas também precisam evoluir na forma como contratam seus parceiros.
Escolher um fornecedor tecnicamente mais preparado não significa defender um investimento maior, mas sim reduzir incertezas, aumentar a previsibilidade e proteger o resultado financeiro do empreendimento.
No fim das contas, a pergunta que deveria orientar qualquer contratação não é “qual proposta custa menos?”. É “qual fornecedor gera mais valor durante toda a execução do projeto?”.
A resposta para essa pergunta quase sempre representa a decisão mais econômica.

